quinta-feira, 27 de abril de 2017

A Floresta do Silêncio


Meus ombros ardem. Deixei a moto quebrada no acostamento e decidi seguir a estrada até encontrar um borracheiro. Espero encontrá -lo e que, ao voltar não me depare com um roubo... mas não creio que alguém se interesse por uma moto que não anda.

Eu voltava de uma viajem longa e decidi mudar a rota, fazer outro caminho, me aventurar. Minha velha condução não teve o mesmo ânimo que eu, no primeiro retorno já dava sinais de cansaço,  parei para uma verificação mas ela estava bem, eu poderia chegar com ela ao meu destino, mais duas horas e meia de viajem e eu estaria no chuveiro. Duas cidade após o ponto em que eu mudei de direção,  o GPS começava a travar e não muito à frente a moto enguiçou. Havia uma cidade interiorana que eu podia ver ao longe suas luzes, pois já eram oito e tantas da noite, e uma noite fria. Desci da moto na intenção de encontrar ajuda.

***

Estou caminhando à cinco minutos, e pelas minhas contas,  andando à pé,  chegarei à cidade em quinze no máximo. A estrada é cheia de curvas fechadas e a neblina começa a brotar do chão e dentre as árvores.  Abro a mochila e puxo um suéter para usar debaixo da jaqueta de motoqueiro.
Talvez eu esteja enganado, a cidade parece cada vez mais longe seguindo essa estrada. Acredito que seja mais rápido cortar caminho em linha reta seguindo o minúsculo amontoado de luzes amarelas. Só há um obstáculo entre mim e a cidade... uma floresta de aparência nada amigável. É  larga  observando de frente e não vejo como contorná-la irá me levar mais rápido até a cidade, pelo que notei antes parecia um retângulo comprido de longe, contornar me faria perder tempo então decido que é melhor cortar caminho por dentro dela.  Mas quem sabe que tipo de animais silvestres se escondem ali?

Está cada vez mais frio e eu preciso chegar à cidade. Dou o primeiro passo em direção às árvores e ouvindo o silêncio me sinto mais à vontade para prosseguir. Nem sinal de animais, nem mesmo insetos ou bater de assas de aves noturnas.  Completo silêncio. Há uma fina camada de neblina tão branca quanto a fumaça liberada da chaminé do Vaticano quando um Papa é escolhido. Essa floresta é tão calma, uma calmaria quase mórbida,  confesso, mas sinto que estou sozinho com as árvores e logo estarei na cidade.  Adentro cada vez mais fundo no mar de árvores silencioso que agora parece ter árvores demais, o que não era possível perceber de fora, também me parece mais profunda e menos larga, quase redonda. Teria eu, sido enganado por uma ilusão de ótica anteriormente? Impossível, tenho certeza do que vi e mais ainda de que não tinha tal formato fechado.

A neblina fica cada vez mais densa, é quase palpável. Estou no coração da floresta e admito, perdido. Fiz algumas voltas desviando de poças traiçoeiras,  buracos aos pés de duas ou três árvores.  A lua está limpa e ilumina o local com sua luz pálida, os troncos das árvores expostas à iluminação adquirem um tom azulado, o resto no escuro parecem negras como petróleo, não há luz lá. À dois passos à direita, um enorme buraco entre três árvores,  alinhadas em um triângulo imaginário.  Tenho que seguir e sumir daqui logo. A neblina agora me toca, como a densidade de um lençol de seda sendo estendido sobre mim e está mais branca, como se fosse possível.  Há uma atmosfera sobrenatural, maleficente e irritada. Preciso sair daqui.

Corro pela esquerda, fugindo do buraco,  se eu caio lá não há alma viva que me socorra. Trombo com uma árvore deixando cair minha mochila em um buraco. AQUELE buraco, entre as três árvores.  Estive correndo em círculos, como sou tolo. Não dá para saber se o buraco é fundo, estico o braço tentando recuperar a mochila. Meus documentos e dinheiro estão lá. Sinto o tecido impermeável e puxo, está enroscada na beira. Faço força e consigo recupera-la. Caio de costas com ela na mão mas eu não sou a única coisa que cai com a mochila. Na alça menor, um osso atravessado.  Uma tíbia pequena, de criança talvez. Dá para sentir a terra em uma ponta, possivelmente estava entrerrada e a mochila enroscou. Lanço fora o osso e evito imaginar a história por trás dele nesse lugar.
O silêncio é quebrado pela primeira vez. Um som gutural sobe do buraco, melancólico e ancioso. Olho novamente para o osso que me desfiz e agora tenho uma certeza em mente.

Eu não devia estar aqui, ignorei todos os sinais de que deveria ficar longe dessa rota. Nunca deveria ter trocado o certo pelo desconhecido.
Um braço escuro com unhas em garra, se arrasta para fora do buraco. Pela luz da lua, um tom de  amarelo podre, doentio. Me afasto e outro braço se expõe. Um grunhido mais alto e afetado...Foi ela. A coisa foi quem me atraiu para essa floresta e eu ingenuamente cedi ao seu feitiço.  Sou sua presa e não tenho para onde fugir.

5 comentários:

  1. Só digo uma coisa, espero que tenha continuação, senão vou ai na tua casa e quebro tua janela da cozinha. kkkk
    Brincadeiras a parte, eu gostei muito mesmo e acabou logo no ápice da história.

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  2. Aaaaaah eu quero a continuação pra ontem! Adorei o texto, bem estruturado e bem escrito, é aquela história que se forma na mente e você quer mais...

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