quarta-feira, 26 de julho de 2017

ELES NÃO USAM BLACK-TIE, Gianfrancesco Guarnieri (Resenha e Resumo)


ELES NÃO USAM BLACK-TIE
Por Gianfrancesco Guarnieri
Peça em 3 Atos e 6 quadros;
30ª edição, 108 páginas;
 pela EDITORA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA
Grande marco do “teatro novo brasileiro”.

Embora o texto tenha sido escrito em 1955, e encenada pela primeira vez em fevereiro de 1958 (no Teatro Arena de São Paulo), certamente ainda é atual. Com temática urbana brasileira, o conflito de classes e o antagonismo do conflito de gerações entre pai e filho, marcado pelo coletivismo e o individualismo, amor e trabalho, Eles Não Usam Black-tie externa toda uma problemática humana e social.
A trama se desenvolve no morro. Um ambiente romantizado, onde temos aquela imagem de comunidade em que todos se conhecem e são amigos, onde há companheirismo.

Personagens:
Tião (Sebastião) –  uma das personagens centrais da trama. O jovem logo cedo foi entregue a seus padrinhos, que são pessoas da cidade e relativamente bem de vida.  Mais tarde Tião retornaria à casa de seus pais, no morro, onde conheceria Maria, sua noiva e a qual espera um filho seu. Amor e responsabilidade, ele então propõe o casamento e assume o filho. Com a ameaça de greve, sente-se ameaçado no emprego, e teme seu futuro. O jovem estaria então, disposto a qualquer coisa para manter-se na fabrica e conseguir sustentar sua nova família.

Otávio -  Pai de Tião, antagonista da trama. Um dos organizadores da greve. Um homem que presa pela moral e tem fé no coletivo. A greve reivindicaria os salários, uma briga por cerca de três mil cruzeiros à mais. Sonhador,  idealista e levemente ingênuo, acredita na força da união da classe operária e que vencerão essa batalha, desprezando totalmente quem pense em furar essa greve.

Dona Romana -  Mãe e mulher. Uma figura protetora (apesar de sempre estar ameaçando e prometendo surra) é uma mulher comum e trabalhadora. Fica dividida entre marido e filho, não interferindo nas decisões de nenhum. Embora sempre aconselhe ambos “Vê lá, hein!”, não faz escolha, e quando tudo acontece, não tenta interceder ao marido a favor do filho.

Tudo começa com a descoberta da gravidez de Maria, logo no primeiro quadro do primeiro ato, a personagem deixa um aviso ao seu noivo, quando falam de são se abandonarem  “Só se tu deixar de sê o meu Tião!”.   O samba-tema,
Nosso amor é mais gostoso,
Nossa saudade dura mais
Nosso abraço mais apertado
Nós não usa as “bleque-tais’.
Minhas juras são mais juras
Meus carinhos mais carinhoso
Tuas mão são mais puras,
Teu jeito é mais jeitoso...
Nós se gosta muito mais,
Nós não usa as “bleque-tais’...”


é cantado por Tião, que mesmo não se sentindo parte daquele lugar, cede a canção do vizinho. O samba é cantado pelo menos três vezes durante a peça, “Nós não usa as ‘bleque-tais’”, entende-se como uma canção de empoderamento, onde se reafirmam, nos dizendo que como pessoas simples, são mais intensas, mais sinceras e amam verdadeiramente, sem interesse, simplesmente amam.
O casal faz sua festa de noivado e marca o casamento para um mês.  A greve está sendo organizada pelo sindicato e o conflito de ideias entre pai e filho fica aparente.

Durante a festa de noivado que se encerra no primeiro ato, iniciamos o segundo ato na manhã seguinte, onde temos uma revelação de Dona Romana: Tião, embriagado, teria feito acusações ao pai, que seria culpado pela sua vida, que queria ter continuado na cidade com seus padrinhos. Tião não quer perder o emprego, tem mulher e filhos para sustentar daqui por diante, então arma junto ao amigo Jesuíno, de furarem a greve, combinando previamente com os patrões, assim se garantindo seu emprego.
A greve chega, Tião sai cedo, Otávio sai cedo. 
Tião volta cedo, Otávio não volta.
Otávio é preso por incitar a greve, e logo após ser solto, há o confronto final entre pai e filho. Otávio percebia que o filho ficava esquivo sempre que mencionada a greve, mas nunca soube da intenção do filho, de agir por si mesmo, para ele “...merda moral é que é pior.” Acredita profundamente na união e que alcançarão seus objetivos se se mantiverem firmes, uns pelos outros. A greve é vencida, os salários subirão. Tião não é prejudicado de nenhuma forma, mas furar greve é questão moral, e o senhor fica profundamente magoado com a atitude do filho, que se justifica e afirma que fez e faria de novo, pela mulher.
Tião é expulso de casa e do morro, mas tem planos de se arranjar na cidade e voltar para buscar Maria, que se nega deixar o morro. Tião mudou e Maria, não queria que ele deixasse de ser quem era, ou quem ela imaginava ser.
No fim de tudo, não era da greve que Tião tinha medo, era da sua realidade. Não queria viver no morro para sempre, ser operário para sempre, vemos aí certa mania de grandeza, por ter vivido tantos anos com seus padrinhos bem de vida. Queria o melhor para si e sua esposa, desejava que Maria não tivesse o mesmo fim que sua mãe, se sacrificando dia e noite. Agiu por si mesmo, não acreditando na união da classe. Ele agora tem que dar tempo ao tempo e tentar se redimir, aprender a acreditar e aceitar o morro.


No decorrer do enredo, percebemos que embora Tião erre, é boa pessoa e com boas intenções. Ele espera que outros operários furem a greve como foi no ano anterior, sem fé alguma no protesto, decide agir por conta própria, pensando no futuro da família que teria com Maria. Podemos perceber isso em comparação à seu colega, Jesuíno, que ambicioso, teve  uma “oportunidade” de se dar bem e a agarrou, prejudicando outras pessoas, Tião repudia seu pensamento e ilustra quanto é moralmente errado. Otavio é um homem de pensamento forte, companheirismo é uma questão ideal para ele, e nesse caso moral. Nota-se uma certa ingenuidade quando fala da greve, otimista, acredita no protesto e espera que seja mais forte que a anterior, cada homem conta, e se acovardar não é opção. Antes ser preso pelo bem de todos, que pensar apenas em si mesmo e furar essa greve. Ele conhece a realidade dos operários e do morro, por isso insiste no companheirismo, que para a mudança todos tem que gritar juntos, por si e pelos demais, um pensamento que foge a Tião, que foi criado longe da realidade do morro, vivendo de pajem para ‘”grã-finos”, mesmo conhecendo a realidade, que ele vive agora, não é capaz de compreender o coletivismo, acostumado ao individualismo da cidade grande. 

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